O jardim curioso
Este álbum constrói uma
narrativa em torno da importância da natureza em espaço urbano e da
forma como aquela consegue irromper no meio das florestas de betão.
Partindo de uma clara dicotomia entre a cidade e a natureza, conta a
história de um jardim irrequieto e curioso que, depois de bem
tratado por Jorge, uma criança que começa a cuidar de algumas
plantas que brotam espontaneamente numa via férrea desativada,
decide percorrer todo o espaço da via e da cidade, ganhando renovada
vida e modificando consideravelmente a paisagem. Do ponto de vista
da construção dos estados de coisas, é de realçar a conceptualização
do jardim como entidade portadora de vontade, como agente, em termos
semântico-pragmáticos: o jardim é concebido (desde o título) como
"curioso", "o jardim começava a sentir-se irrequieto. Queria
explorar", "Jorge e o jardim curioso exploram todos os recantos da
via férrea", "o jardim sempre quisera explorar o resto da cidade",
etc. Esta conceção do jardim como entidade portadora de vontade e
intencionalidade colide com a ideia generalizada de uma natureza
amorfa e simplesmente paciente das ações humanas. Neste caso,
elemento humano e elemento natural juntam esforços numa ação
planificada e estratégica, não se encontrando em fações opostas. A
ação de ambos transforma a cidade: no início, tratava-se de um
espaço "muito desolado", cinzento, poluído e que obrigava os
habitantes a passar "o tempo dentro de casa"; no final da obra,
"muitos anos mais tarde, a cidade inteira tinha florescido" e
transformara-se num espaço acolhedor, agradável, colorido.
Sublinhe-se, contudo, que a obra não configura uma natureza que segue o seu rumo espontâneo e alheio à ação humana: a natureza retratada é fortemente formatada pelos habitantes da cidade e não se pode falar em ambientes naturais a propósito destes jardins urbanos, podados, dirigidos, moldados aos interesses dos humanos. O espaço natural é, então, essencialmente configurado como meio ao serviço do homem, que recusa o papel de igualdade a todos os elementos naturais, para reclamar para si a primazia sobre todos os outros, numa atitude assumidamente antropocêntrica.
A obra faz o elogio da ação individual local, em prol do bem geral global, dando realização concreta à máxima "agir local, pensar global": de facto, os pequenos gestos do protagonista humano acabaram por contagiar outros indivíduos e, juntos, acabaram por ajudar a natureza a marcar uma diferença significativa. Este elogio da ação a favor do ambiente é um elogio da ação a favor do homem, e incorpora uma implicação derivada de exortação a cada leitor para uma ação semelhante.
As ilustrações, muito originais e expressivas, ajudam a sublinhar o caráter fabulístico do texto, sem esquecer de introduzir muitos apontamentos cómicos que reforçam a mensagem principal.
Ramos, R. & Ramos, A. M., 2010